segunda-feira, 5 de novembro de 2007

intervalo



espaço morto-vivo
pequenas alucinações
pensamentos pecaminosos

uma bomba sob a língua
desejo incontrolável de

não há porque chorar debaixo da cama

porta entreaberta
maçaneta gelada e úmida
cheiro de alfazema

um buquet de rosas no chão
desejo incontrolável de

não há porque engolir seco o grito



quarta-feira, 26 de setembro de 2007

o homem e a cidade


o movimento interno das vísceras e dos sentidos
desfila no meio-fio que separa o passeio da rua

nas extremidades o homem e seus princípios desentendem-se
carne e asfalto são paralelas que se cruzarão no (in)finito

meias de lã e gravatas misturam-se a colchonetes sem abrigo
não há provimento possível para a desesperança

o silêncio dos passos cruza o barulho constante
rumo ao verso anti-penúltimo do poema

no instante anterior ao fim: cai o corpo entrelaçado ao chão
o personagem morre preso à própria alma

o organismo disfunciona as partes
a cidade vomita o homem e o devora


terça-feira, 15 de maio de 2007

descomeços





lugar de descomeços
estrada de ferro solitária
onde caminhava o bonde da década

(micro espaços-fagulhas
penetram pés e dedos)

lugar de descomeços
escada de poucos degraus
à parede de tijolos sem abertura

(pés e dedos descaminham rotas
soluções diárias para o infinito)

lugar de descomeços
arquivo de carta de amor digitada
pasta de material não entregue

(passagem de ida)

quarta-feira, 21 de março de 2007

espaços cascos dobram a ponte
sopra um vento vazio
algumas folhas
canetas

(tento dizer-te palavras sóbrias)

muitas nuvens derretem homens
gritam gentilezas falsas
alguns abraços
beijos

(tento abrir um furo na caixa)

camundongos esperneiam possibilidades de esgoto

possibilidades
de esgoto

(não há caixa)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

vôo rasante

I

cidade - varanda
câmera lenta onda
espigões de lua cheia

forno solar, encontros
riomar aberto a abraços
mundo de ponta cabeça

amigos & estilhaços
beijos trocados
passado inteiro

fraturas no cais


II

papai noel existe?

perguntas tolas rolam
escadaria abaixo

sonhos de porcelana
quebrados, cacos
na mão direita


III

a criança corre para o nada
para o desconhecido, joga-se

a criança varando a madrugada
luzes refletem sua sombra no asfalto
o centro é a periferia
ruínas que constroem a passagem

nebulosas desgovernadas se chocam
nascem elefantes brancos
que procriam minotauros

é preciso matar o monstro
mas é o monstro o que a criança cria

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

os canhões e o garoto

sinto-me sempre voltando a falar
talvez seja engano porque tudo se começa, não há volta
assim, de início, sempre como nada, já nada deixo de ser
é atividade de carrinho de rolimã abrir veredas
ou mesmo seja brincar de elástico
o meio é o fim

vale pular de abismo, ou sonhar água correndo
tanto faz, como diria o rapaz: “seja o que for”
agora, a bola da vez já deixou de ser o resultado das eleições
apontam os canhões para os aeroportos do Brasil
daqui há pouco outro garoto estará estendido no chão
virá uma foto medir o tamanho da notícia
a quantidade de letras para a chamada
quem sabe caia no lixo esquecido das realidades
e o corpo morto sempre gritando entre os lençóis

tentando voltar

mas deve ser engano, não há volta
sempre como nada, o fim é o fim mesmo
vale pular a realidade, mas tudo começa agora
esquecido o resultado das eleições, tanto faz
no lixo uma foto dos canhões e o garoto

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

poesia é matéria de ausência

A poesia não cumpre desejo impróprio a ela, morre presa, sem grito possível.
- Cava um diamante no verniz da porta! – a velha se repete se repete – Cava!
A poesia é feita de madeira a apodrecer, de entulho, como Manoel já disse: de resto.
A beleza da poesia está no que ela carrega de ausência.

(deixemos este espaço para a ausência da possível poesia que exista aqui)

É um pouco antes de iniciar a leitura de um parágrafo ou de um verso que ele começa a tomar forma.
Mas só de forma não se faz poesia. Por isso, às vezes muitos anos depois da mesma leitura é que se vai encontrar a ausência do parágrafo ou do verso, numa releitura, ou mesmo num pegar de ouvido.
A poesia tem uma relação estranha com o tempo.