sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

vôo rasante

I

cidade - varanda
câmera lenta onda
espigões de lua cheia

forno solar, encontros
riomar aberto a abraços
mundo de ponta cabeça

amigos & estilhaços
beijos trocados
passado inteiro

fraturas no cais


II

papai noel existe?

perguntas tolas rolam
escadaria abaixo

sonhos de porcelana
quebrados, cacos
na mão direita


III

a criança corre para o nada
para o desconhecido, joga-se

a criança varando a madrugada
luzes refletem sua sombra no asfalto
o centro é a periferia
ruínas que constroem a passagem

nebulosas desgovernadas se chocam
nascem elefantes brancos
que procriam minotauros

é preciso matar o monstro
mas é o monstro o que a criança cria

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

os canhões e o garoto

sinto-me sempre voltando a falar
talvez seja engano porque tudo se começa, não há volta
assim, de início, sempre como nada, já nada deixo de ser
é atividade de carrinho de rolimã abrir veredas
ou mesmo seja brincar de elástico
o meio é o fim

vale pular de abismo, ou sonhar água correndo
tanto faz, como diria o rapaz: “seja o que for”
agora, a bola da vez já deixou de ser o resultado das eleições
apontam os canhões para os aeroportos do Brasil
daqui há pouco outro garoto estará estendido no chão
virá uma foto medir o tamanho da notícia
a quantidade de letras para a chamada
quem sabe caia no lixo esquecido das realidades
e o corpo morto sempre gritando entre os lençóis

tentando voltar

mas deve ser engano, não há volta
sempre como nada, o fim é o fim mesmo
vale pular a realidade, mas tudo começa agora
esquecido o resultado das eleições, tanto faz
no lixo uma foto dos canhões e o garoto

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

poesia é matéria de ausência

A poesia não cumpre desejo impróprio a ela, morre presa, sem grito possível.
- Cava um diamante no verniz da porta! – a velha se repete se repete – Cava!
A poesia é feita de madeira a apodrecer, de entulho, como Manoel já disse: de resto.
A beleza da poesia está no que ela carrega de ausência.

(deixemos este espaço para a ausência da possível poesia que exista aqui)

É um pouco antes de iniciar a leitura de um parágrafo ou de um verso que ele começa a tomar forma.
Mas só de forma não se faz poesia. Por isso, às vezes muitos anos depois da mesma leitura é que se vai encontrar a ausência do parágrafo ou do verso, numa releitura, ou mesmo num pegar de ouvido.
A poesia tem uma relação estranha com o tempo.

terça-feira, 5 de setembro de 2006

quanto vale uma alma?

tenho papagaios de manga
algumas moedas
restos de comida roxa
sou de uma riqueza fantástica
tenho até medo de seqüestro

quanto vale uma alma?

terça-feira, 15 de agosto de 2006

sobre o depois depois das guerras...

voltar é estar aos rodopios

sábado, 20 de maio de 2006

parênteses para a realidade crua

Paulo disse: “nos tornamos um espetáculo (teatro) ao mundo” (1 Co­ 4:9).
São Paulo, a cidade, parafraseia o apóstolo que deu origem ao seu nome.

eis o espetáculo:

o crime contra-ataca. uns sem números de mortos. rebeliões, em série, nos presídios do Brasil. medo. insegurança. as caras lavadas. os discursos vazios.

as emissoras de TV ampliam a tragédia. tragédia pouca é bobagem.

no mais, briga de vizinhos: siglas presidenciáveis. atitude, atitude mesmo: o povo escondido, aterrorizado.

onde fica, um amigo indagou, nossa revolta de cidadão? na letra torta do monitor? na fala morta no meio da multidão?


(e mesmo pergunto novamente: como nos rebelar de forma pacífica contra esse país de ladrões engravatados que não sofrem bloqueio algum?)

sexta-feira, 12 de maio de 2006

à mulher que matou os peixes

perdoe-me, Clarice, eu não sei o que faço
perdoe-me o uso indevido do teu nome e das tuas palavras
perdoe-me por não ter matado antes da necessidade de gritar
e na pressa ter vestido o corpo cru de muros e filipetas promocionais
perdoe-me a falta de ar, o excesso de paixão
perdoe-me pela verdade explícita, pelo medo de ser feliz
perdoe-me por adorar essa angústia que me devora


(oração da escrita tortuosa)