quarta-feira, 19 de novembro de 2008

uma proposta para trilha de imersão


roteiro de passos,
um após outro,
percorrendo trilhas urbanas

multidão de formigas apressadas subindo e descendo, subindo e descendo, rolando escadas abaixo e acima, entrando e saindo de portas automáticas. seis da tarde, são paulo, estação da sé. as formigas andam em rebanho para dentro e para fora, correndo atrás de.

mapas distribuídos pela cidade informam a necessidade de se saber onde, e para onde.

olhares semi-vivos se cruzam apressados.
cada um é um si só a procurar um silêncio qualquer.

subterfúgio da agonia urbanóide esquizofrênica: o tempo não pára.

a voz anuncia o lugar do humano na cartografia, e não na climatologia:
“próxima estação...”

casacos nos abrigam do frio, da rispidez cotidiana, da exposição do corpo, do toque alheio. casacos e guarda-chuvas são proteções (des)necessárias à sobrevivência de um ser nu, recém-nascido para o rebanho de formigas.

é preciso demarcar lugares, traçar rotas de imersão, permitir sensações orgânicas de espasmo, afronhar-se no outro e respirar algo mais que a quota de poluição gratuita.

é preciso propor desmanches de palavras duras, de expressões ensimesmadas.

é preciso provocar afecto e permitir ser afectado para amassar o concreto e o cinza das estruturas.


sexta-feira, 26 de setembro de 2008

pistas para descaminhos


(trans)incitar, cruzar fronteiras
dissolver os pés na água do mar
pegar de vento à sombra das horas

(palavras intermináveis coladas umas às outras)

propor novos deslocamentos
com ombros estáveis, com mãos disponíveis
sob o ângulo dos remotos incontroláveis

(pistas para longos descaminhos)

desestruturar o uniforme
conter o quase-vazio diante de si mesmo
respirar o contato mútuo das retinas

domingo, 13 de janeiro de 2008

cidade-duna


lugar de trânsito
velhos novos amigos
sabores e aromas

memória imaterial das coisas

lugar de encontros
ponto retorno guia
abraços e sorrisos

espaço interior de re-construções

lugar de ventania
trilhas luzes móveis
perigo e paz


segunda-feira, 5 de novembro de 2007

intervalo



espaço morto-vivo
pequenas alucinações
pensamentos pecaminosos

uma bomba sob a língua
desejo incontrolável de

não há porque chorar debaixo da cama

porta entreaberta
maçaneta gelada e úmida
cheiro de alfazema

um buquet de rosas no chão
desejo incontrolável de

não há porque engolir seco o grito



quarta-feira, 26 de setembro de 2007

o homem e a cidade


o movimento interno das vísceras e dos sentidos
desfila no meio-fio que separa o passeio da rua

nas extremidades o homem e seus princípios desentendem-se
carne e asfalto são paralelas que se cruzarão no (in)finito

meias de lã e gravatas misturam-se a colchonetes sem abrigo
não há provimento possível para a desesperança

o silêncio dos passos cruza o barulho constante
rumo ao verso anti-penúltimo do poema

no instante anterior ao fim: cai o corpo entrelaçado ao chão
o personagem morre preso à própria alma

o organismo disfunciona as partes
a cidade vomita o homem e o devora


terça-feira, 15 de maio de 2007

descomeços





lugar de descomeços
estrada de ferro solitária
onde caminhava o bonde da década

(micro espaços-fagulhas
penetram pés e dedos)

lugar de descomeços
escada de poucos degraus
à parede de tijolos sem abertura

(pés e dedos descaminham rotas
soluções diárias para o infinito)

lugar de descomeços
arquivo de carta de amor digitada
pasta de material não entregue

(passagem de ida)

quarta-feira, 21 de março de 2007

espaços cascos dobram a ponte
sopra um vento vazio
algumas folhas
canetas

(tento dizer-te palavras sóbrias)

muitas nuvens derretem homens
gritam gentilezas falsas
alguns abraços
beijos

(tento abrir um furo na caixa)

camundongos esperneiam possibilidades de esgoto

possibilidades
de esgoto

(não há caixa)